3 de outubro de 2010

Pergunta.

O menino chega para o pai e pergunta:

''Papai, quem nos criou?''

O pai olha para o filho com uma cara séria por vários minutos. E por muito mais minutos. Até que o filho se cansa, e vai embora.
A pergunta não se cala na mente do homem. Pensou o dia inteiro, e não conseguiu chegar à uma conclusão. Durante a semana pensou e repensou. Até que, depois de um ano inteiro, chegou a conclusão, e disse, triunfante, para o filho:

''Deus!''

O filho fica com uma feição surpresa, que logo após é substituída por uma duvidosa.

''Então, quem criou Deus, papai?''

O homem para. Para e pensa, porém, dessa vez, mais rápido. E segundos depois, dá a resposta, mais triunfante do que da última vez:

''Ah, vai brincar, moleque!''


Ei!

Ouviam-se os murmuros:

''Ei, você. Acorda, vai. Levanta. Ei, o sol nasceu. Vamos, acorde. Os bichos estão morrendo.
Estão destruindo as árvores! Onde está a sua cabeça? A poluição está acabando com tudo! Vamos! Mexa-se!
As geleiras, estão derretendo! O pássaro está sem voz! Ele está morto! Socorro, chamem a polícia, rápido!
Um ser está ferido! O que está acontecendo com você!? Virou pedra!? Ande, acorde!''

Ainda sim, o homem não apresentava nenhuma reação.

''SOCORRO! VAMOS, ACORDE! O QUE ACONTECE COM VOCÊ!? VOCÊ ESTÁ MORTO POR ACASO? HEIN?! HÁ MUITA COISA PARA SER FEITA, VAMOS LEVANTE!''

Em um determinado momento os sussuros acabam. E no exato momento, o simplório homem abre os olhos, desnorteado. Como se procurasse alguém, balbuciou:

''Era só um pesadelo. É melhor voltar a dormir.''

E o homem fechou seus olhos novamente.

Ela.

O dia era ensolarado. O céu irradiava a luz ofuscante do sol, divida em feixes entre as nuvens. Pequenas crianças gritavam sons inaudíveis ao brincar, enquanto senhoras simpáticas balbuciavam algo, tricotando no banco cinza do parque. Sentei-me em um deles e ouvi o som inquietante que rangia das placas de madeira. Inclinei minha cabeça para baixo, e olhei para os sapatos, como se esperasse que alguma coisa extraordinária acontecesse naquele momento. O dia fora estressante, mas ali eu encontrava meu refúgio, de tudo, de todos. Existia em mim esse desejo de sair de repente, quebrando todas as regras e simplesmente relaxar. Relaxar naquele tranqüilo parque que durante dias, eu esperava a felicidade chegar.

Olhei para os lados, procurando por nada, porém encontro algo. Ela. Caminhando, exuberante de uma forma inexplicavelmente simples. Seus cabelos morenos, soltos, eram providos de total naturalidade, similar ao seu sorriso, que parecia não ter um motivo para ser. Simplesmente era.

Não sabia seu nome, idade, nem endereço. O estado de êxtase não me permitia parar seu andar despretensioso e gentil para perguntar. Restava-me somente observar e admirar. Particularmente, nunca acreditei em amor à primeira vista. Mas eu mesmo não sabia se aquilo era amor. Sabia apenas que olhá-la me fazia despertar uma incrível paz interior. Uma paz e até uma certa felicidade, aquela que eu tanto procurava naquele pacato parque.

Porém, no instante em que sua visão se esvai do meu olhar, o despertador toca. E eu acordo, procurando aquele parque, aquelas crianças e especialmente aquela mulher que nunca passaria de um mero sonho.